quinta-feira, 28 de abril de 2011

OS PROFESSORES E OS SACERDOTES DA PRIVATARIA

Os professores e os sacerdotes da privataria

Fonte: Blog do Azenha

Que bom que os Sindicatos de Trabalhadores da Educação preocupam os
sacerdotes da privataria e seus braços ideológicos!
por Gaudêncio Frigotto, Zacarias Gama, Eveline Algebaile, Vânia
Cardoso da Mota, Hélder Molina*


Vários meios de comunicação utilizam-se de seu poder unilateral para
realizar ataques truculentos a quem ousa contrariar seus interesses. O
artigo de Gustavo Ioschpe, publicado na edição de 12 de abril de 2011
da Revista Veja (campeã disparada do pensamento ultraconservador no
Brasil), não apenas confirma a opção deliberada da Revista em atuar
como agência de desinformação – trafegando interesses privados mal
disfarçados de interesse de todos –, como mostra o exercício dessa
opção pela sua mais degradada face, cujo nível, deploravelmente baixo,
começa pelo título – “hora de peitar os sindicatos”. Com a arrogância
que o caracteriza como aprendiz de escriba, desde o início de seu
texto, o autor considera patrulha ideológica qualquer discordância em
relação às suas parvoíces.
Na década de 1960, Pier Paolo Pasolini escrevia que o fascismo
arranhou a Itália, mas o monopólio da mídia a arruinou. Cinquenta anos
depois, a história lhe deu inteira razão. O mesmo poderia ser dito a
respeito das ditaduras e reiterados golpes que violentaram vidas,
saquearam o Brasil, enquanto o monopólio privado da mídia o arruinava
e o arruína. Com efeito, os barões da mídia, ao mesmo tempo em que
esbravejam pela liberdade de imprensa, usam todo o seu poder para
impedir qualquer medida de regulação que contrarie seus interesses,
como no caso exemplar da sua oposição à regulamentação da profissão de
jornalista. Os áulicos e acólitos dessa corte fazem-lhe coro.
O que trafega nessa grande mídia, no mais das vezes, são artigos de
prepostos da privataria, cheios de clichês adornados de cientificismo
para desqualificar, criminalizar e jogar a sociedade contra os
movimentos sociais defensores dos direitos que lhes são usurpados,
especialmente contra os sindicatos que, num contexto de relações de
superexploração e intensificação do trabalho, lutam para resguardar
minimamente os interesses dos trabalhadores.
Os artigos do senhor Gustavo Ioschpe costumam ser exemplos
constrangedores dessa “vocação”. Os argumentos que utiliza no artigo
recentemente publicado impressionam, seja pela tamanha tacanhez e
analfabetismo cívico e social, seja pelo descomunal cinismo diante de
uma categoria com os maiores índices de doenças provenientes da
superintensificação das condições precárias de trabalho às quais se
submete.
Um dos argumentos fundamentais de Ioschpe é explicitado na seguinte
afirmação: Cada vez mais a pesquisa demonstra que aquilo que é bom
para o aluno na verdade faz com que o professor tenha que trabalhar
mais, passar mais dever de casa, mais testes, ocupar de forma mais
criativa o tempo de sala de aula, aprofundar-se no assunto que
leciona. E aquilo que é bom para o professor – aulas mais curtas,
maior salário, mais férias, maior estabilidade no emprego para montar
seu plano de aula e faltar ao trabalho quando for necessário – é
irrelevante ou até maléfico aos alunos.
A partir desse raciocínio de lógica formal, feito às canhas, tira duas
conclusões bizarras. A primeira refere-se à atribuição do poder dos
sindicatos ao seu suposto conflito de interesses com “a sociedade
representada por seus filhos/alunos”: “É por haver esse potencial
conflito de interesses entre a sociedade representada por seus
filhos/alunos e os professores e funcionários da educação que o papel
do sindicato vem ganhando importância e que os sindicatos são tão
ativos (…)”.
A segunda, linearmente vinculada à anterior, tenta estabelecer a
existência de uma nefasta influência dos sindicatos sobre o desempenho
dos alunos. Nesse caso, apoia-se em pesquisa do alemão Ludger
Wossmann, fazendo um empobrecido recorte das suas conclusões, de modo
a lhe permitir afirmar que “naquelas escolas em que os sindicatos têm
forte impacto na determinação do currículo os alunos têm desempenho
significativamente pior”.
Os signatários deste breve texto analisam, há mais de dois anos, a
agenda de trabalho de quarenta e duas entidades sindicais afiladas à
Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e
acompanham ou atuam como afiliados nas ações do Sindicato Nacional dos
Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-SN.
O que extraímos dessas agendas de ação dos sindicatos é, em tudo,
contrário às delirantes e deletérias conclusões do articulista.
Em vez de citar pesquisas de segunda mão, para mostrar erudição e
cientificidade em seu argumento, deveria apreender o que demanda uma
análise efetivamente científica da realidade. Isso implicaria que de
fato pesquisasse sobre a ação sindical docente e sobre os processos
econômico-sociais e as políticas públicas com os quais se confronta e
dialoga e, a partir dos quais, se constitui. Não imaginamos que um
filho de banqueiros ignore que os bancos, os industriais, os
latifundiários, a grande mídia têm suas federações ou organizações que
fazem lobbies para ter as benesses do fundo público.
Um efetivo envolvimento com as pesquisas e com os processos sociais
permitiria ao autor perceber onde se situam os verdadeiros
antagonismos e “descobrir” que os sindicatos não se criaram puxando-se
de um atoleiro pelos cabelos – à moda do Barão de Münchhausen –,
autoinventando-se, muito menos confrontando-se com os alunos e seus
pais.
As análises que não levam isso em conta, que se inventam puxando-se
pelos cabelos a partir dos atoleiros dos próprios interesses, não
conseguem apreender minimamente os sentidos dessa realidade e resultam
na sequência constrangedora de banalidades e de afirmações levianas
como as expostas por Ioschpe.
Uma das mais gritantes é relativa ao entendimento do autor sobre quem
representa a sociedade no processo educativo. É forçoso lembrar ao
douto analista que os professores, a direção da escola e os sindicatos
também pertencem à sociedade e não são filhos de banqueiros nem se
locupletam com vantagens provenientes dos donos do poder.
Ademais, valeria ao articulista inscrever-se num curso de história
social, política e econômica para aprender uma elementar lição: o
sindicato faz parte do que define a legalidade formal de uma sociedade
capitalista, mas o ultraconservadorismo da revista na qual escreve e
com a qual se identifica já não o reconhece, em tempos de vingança do
capital contra os trabalhadores.
Cabe ressaltar que todos os trocadilhos e as afirmações enfáticas
produzidos pelo articulista não conseguem encobrir os interesses
privados que defende e que afetam destrutivamente o sentido e o
direito da população à educação básica pública, universal, gratuita,
laica e unitária.
Ao contrário do que afirma a respeito da influência dos sindicatos nos
currículos, o que está mediocrizando a educação básica pública é a
ingerência de institutos privados, bancos e financistas do
agronegócio, que infestam os conteúdos escolares com cartilhas que
empobrecem o processo de formação humana, impregnando-o com o discurso
único do mercado – o da educação de empreendedores. E que, muitas
vezes,
com a anuência de grande parte das administrações públicas, retiram do
professor a autoridade e a autonomia sobre o que ensinar e como
ensinar dentro do projeto pedagógico que, por direito, eles constroem,
coletivamente, a partir de sua realidade.
O que o Sr. Ioschpe não mostra, descaradamente, é que esses institutos
privados não buscam a educação pública de qualidade e nem atender o
interesse dos pais e alunos, mas lucrar com a venda de pacotes de
ensino, de metodologias pasteurizadas e de assessorias.
Por fim, é de um cinismo e desfaçatez vergonhosa a caricatura que o
articulista faz da luta docente por condições de trabalho e salário
dignos. Caberia perguntar se o douto senhor estaria tranquilo com um
salário-base de R$ 1.487,97, por quarenta horas semanais, para
lecionar em até 10 turmas de cinquenta jovens. O desafio é: em vez de
“peitar os sindicatos”, convide a sua turma para trabalhar 40 horas e
acumular essa “fortuna” de salário básico. Ou, se preferir fazer um
pouco mais, trabalhar em três turnos e em escolas diferentes.
Provavelmente, esse piso para os docentes tem um valor bem menor que o
que recebe o articulista para desqualificar e criminalizar,
irresponsavelmente, uma instituição social que representa a maior
parcela de trabalhadores no mundo.
Mas a preocupação do articulista e da revista que o acolhe pode ir
aumentando, porque, quando o cinismo e a desfaçatez vão além da conta,
ajudam aqueles que ainda não estão sindicalizados a entender que devem
fazê-lo o mais rápido possível.
*Os três primeiros autores são professores do Programa de
Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (PPFH/UERJ); professora da Faculdade de
Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e colaboradora do
PPFH/UERJ; educador, assessor sindical e doutorando do PPFH/UERJ.